Carta para 2100
Olá amigos de 2100, espero que esses relatos cheguem intactos para que as realidades deles sirvam de registros históricos. Para que aqueles que vivem no seu tempo vejam como as coisas funcionavam aqui em 2006 no Brasil e, se possível no mundo.
Aqui as coisas não andam muito boas. O povo ainda não entende muito de política, mas isso é um fator histórico também, já que não tivemos um começo bom. Para quem não sabe, o Brasil tem um pouco mais de 500 anos de vida. Para saber mais sobre como aconteceu a colonização, basta ir em um dos mecanismos de busca, creio que devam existir muitos agora. E por falar em mecanismos de busca o Google é o líder mundial, através dele você encontra muitas informações, na verdade você encontra o que quiser praticamente.
O presidente aqui de 2006 chama-se Luis Inácio Lula da Silva. Já está em seu segundo mandato. Existem muitas opiniões, mas o que dá pra saber é que em seu governo muitos esquemas de corrupção foram descobertos. Mas mesmo assim ele foi reeleito. Falarei mais nos tópicos sobre política.
A religião está em processo de degradação. A repressão ainda tem seus resquícios de força, mas só para quem quer, pelo menos no Brasil. Nos países do Oriente Médio as coisas só pioram. Alguns dizem que a causa é puramente financeira, para outros é religiosa somente e para muitos outros a questão é dúbia. Eu, particularmente, acho que se trata mais dessa luta pelo poder que faz parte de quase todas as nações. Na Índia ainda existe o regime de castas e é seguido rigorosamente, mas o crescimento econômico dessa nação é algo que tem causado certo espanto em grandes nações como os EUA. A China também está em pleno processo de expansão comercial, mas religiosamente não sei como tem sido. Aqui no Brasil o populismo dos evangélicos tem levado muitas pessoas a loucura, outros a colocar sobre os outros jugos que eles mesmos não suportam. Contarei sobre questões religiosas nos tópicos sobre religião.
Os relacionamento interpessoais estão em crise, para ser sincero, desde que me entendo por gente é assim. Você vale o que tem. Com a expansão dos meios de comunicação as pessoas tem menos o que falar, e vivem as custas do que acontece na vida alheia, principalmente se desabonar seus potenciais. Nos tópicos sobre relacionamentos falarei sobre essa dinâmica de forma mais pessoal, mas creio que muitos que vivem no meu tempo se sentem como eu.
A cultura no meu país está bem banal e sem conteúdo, assim como a cultura dos EUA que procuramos copiar a todo custo. Na música há poucos que ainda tentam sobreviver com autenticidade, mas assim que as grandes gravadoras ganham os direitos autorais, os músicos, escritores, compositores e artistas dessa área mudam completamente. O hip-hop é uma cultura que deveria ser de protesto, porém também se corrompeu e os rappers que fazem sucesso falam de drogas, crime e mulheres. Resumindo não levam consciência às favelas, como já fizeram um dia. É claro que existem as exceções da regra. Mas na sua maioria está corrompida pelas verdes do capitalismo. A literatura está crescendo no Brasil, mas os livros que fazem sucesso querem implantar na cabeça das pessoas suas formas de ver o mundo, mas dificilmente passam da prática. Por outro lado também existem as exceções, principalmente na área filosófica. Algumas editoras estão começando a liberar alguns livros a preços bem acessíveis. Hoje é possível comprar uma coleção dos escritos de Nietzsche por menos de 200 reias (moeda vigente no Brasil). Temo que as editoras que tem lançados títulos históricos quebrem, pois as traduções ainda deixam muito a desejar, são de difícil compreensão e carregados de erros grosseiros de digitação, sem falar que no meu país a filosofia clássica não tem muito espaço. Reflexo da religiosidade cega e da procura por títulos de auto-ajuda. Em muitos casos as pessoas se viciam em literaturas de baixo nível por que querem livrar-se do colapso emocional no qual estamos inseridos. Nas pinturas não conseguimos enxergar traços de autenticidade e o abstrato foi banalizado, não há um porque para as cores expostas, mas causa admiração daqueles que nunca ouviram falar de Michelangelo. E por falar em pinturas, como andam as artes em 2100? É duro saber que não estarei ai para saber.
Na ciência ainda há a velha intriga dos religiosos, aqueles mesmos que não aceitavam que a terra fosse um planetinha sem muita influência em uma pequena galáxia entre as muitas que são descobertas de vez enquando. A evolução ainda recebe crítica dos criacionistas e nos EUA os alunos ainda não podem ter acesso irrestritos as teorias de Darwin e no Brasil esse nome pode facilmente ser confundido com um novo creme de barbear. Só pra se ter uma idéia, no mês de outubro participei de um congresso sobre Nanotecnologia na Universidade Federal do Espírito Santo e fiquei “de cara” (pasmo) pelo fato de em todos os dias ter menos de 20 pessoas assistindo. E em 2100, como estão os avanços sobre nanotecnologia? Já conseguiram fazer com que transmissores levem as substâncias necessárias para as células conseguirem viver de forma saudável? E os estudos sobre células-tronco, a quantas andam? Espero que já tenham conseguido recriar todos os órgão humanos a ponto de ninguém mais morrer. Como eu gostaria de estar ai vivo com meu corpo refeito por processos científicos que me permitissem permanecer apenas com a minha parte pensante e emocional originais. Continuando…com a ciência, creio que neste tópico terei muitas coisas interessantes para falar, espero que até o dia de minha morte, duração desse livro, já estejamos bem avançados com relação as transformações mais que necessárias pelos quais a ciência deve passar.
Além dos tópicos que citei nessa pequena introdução, falarei sobre cotidiano e todas as dinâmicas existenciais que me vierem a mente. Não prometo ser imparcial, já que é apenas a minha visão sobre meu tempo, mas prometo trazer referências de pensadores do meu tempo, mesmo não concordando com suas posições sobre os diversos temas que estou me propondo a escrever.


